CONTO: Borrões de tinta azul

8 de dez de 2016
textos autorais

 A folha se encontrava cheia de manchas, lágrimas caídas sobre as letras desenhadas tão desesperadamente mas que agora formavam apenas borrões.

 As mãos da garota tremiam e estavam mais brancas que o normal, o mesmo servia para seus lábios finos e as bochechas que costumavam ser rosadas. Apoiava a lâmina sobre a pele e tentava forçar mas suas mãos não se firmavam o suficiente para continuar o ato. 


Mais lágrimas borbulhavam dos grandes olhos dele, dessa vez poderiam ser de tristeza, frustração e até raiva, eram tantos os motivos que nem sabia classificar as inúmeras gotas grossas que haviam marcado um caminho dos olhos até o queixo da morena. Logo depois do trajeto facial concluído, caiam na folha, a mesma que ela não deixava de escrever. Precisava que tudo estivesse bem explicado. Não podia deixar que alguém pensasse que qualquer parte do seu ato era sua culpa, ela queria ir mas queria ir livre de tudo. Sem deixar mágoa nenhuma pra trás.

 Na carta pedia mil perdões em letras maiúsculas e tremulas. Implorava para que os pais não ficassem magoados com ela, explicava o quanto havia tentado resistir mas toda aquela pressão que agora habitava sua mente não a deixaria em paz se ela insistisse em continuar e esse era o maior motivo da sua partida.

 Dizia o quanto se sentia refém da ansiedade que morava dentro de si e que não poderia continuar a conviver com aquela hóspede que tanto gostava de se meter em tudo. Aquela hóspede que gritava quando a garota simplesmente pisava na rua, quando ela via um grupo de pessoas e até quando uma simples mensagem não era respondida na hora. Tudo era motivo pra essa hóspede atacar e ela não aguentava e nem queria mais isso, precisava fugir e a única maneira de conseguir isso era deixando de existir.

 Secou algumas lágrimas e firmou as mãos enquanto segurava a lâmina. Respirando fundo a garota iniciou um pequeno corte no pulso esquerdo. Assistia de perto sua pele se abrindo e o sangue escorrendo, sentiu sua visão ficar turva. Tudo estava tão silencioso que parecia estar em câmera lenta. De repente um estrondo lhe tira a concentração. Sua porta agora está escancarada, a última coisa que se lembra é de sentir seus joelhos entrarem em contato com o chão de modo brusco. Finalmente, tudo escurece.

8 comentários:

  1. Bom dia ...espero de coração que essa não seja a sua verdade, que seja apenas um conto, devaneios, borrões de tinta... mas sei que essa é a realidade de muitos jovens, neste instante, mesmo que eu não saiba... muito triste!

    Blog A primeira Casa

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    1. Quase todos os textos tem um fundinho de verdade, né? Mas prometo que nesse aqui a verdade tá beeeeem no fundo mesmo! <3 Beijão

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  2. Estou em choque! A cada linha que eu lia, meus olhos se arregalavam mais e eu só pensava: "não, não faça isso! por favor, não...". Estou arrepiada demais. Parece que eu vi isso acontecendo, nossa, que dor no peito. O texto está tão bom que realmente me chocou.

    Beijos,
    Blog Gaby DahmerFanpageInstagramTwitter

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    1. Fico feliz em saber disso ❤ Beijão Gaby

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  3. Que texto profundo e aflitivo. No inicio a gente imagina o que ela ira fazer e desejamos que tudo não passe de um terrível engano. Um texto triste, porém real.

    Blog Profano Feminino

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    1. Infelizmente essa é a realidade de muitas pessoas. Beijão

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